Uma posição de poder pode levar ao isolamento, mas é necessário contar com ajudantes

“Tudo aliás, é ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo”. (Guimarães Rosa)

A genialidade deste escritor reside na ousadia de sua narrativa, e da forma criativa ele elevou a literatura ao âmbito da arte. A sua afirmação de que há um milagre no nada, pode, a princípio, parecer um sofisma, mas ele também diz, “tudo aliás, é a ponta de um mistério”. Mesmo que a frase seja tirada do contexto, ao equiparar a escrita narrativa à arte, busco referência na música e na poesia. Por exemplo, ouvimos uma música ou lemos uma poesia sem nos darmos conta dos intervalos, nos espaços que há entre notas ou versos, e ali está a magia da arte; quase um milagre. Na arte, os elementos aparecem em sequência e simultaneamente e, não obstante esta aparente contradição, confiamos na arte e apreciamos toda a coerência melódica e harmônica que une notas e versos, constituindo um todo. Os intervalos estão lá e nem os notamos, se eles desaparecessem a música ou o poema também desapareceriam. Sem esse vazio não ouviríamos a música ou mesmo entenderíamos uma poesia, e isto é um milagre. Toda peça de arte também tem uma narrativa contando uma história, provocando sentimentos que associamos a acontecimentos de nossa vida gravados na nossa memória.

Como disse Rosa, tudo é a ponta de mistério que está oculto nos acontecimentos. A observação atenta, por meio do exercício do ver e ouvir a narrativa é uma capacidade disponível e, por meio dela, pode ser revelado o mistério dos fatos ou não-fatos. Prestar atenção é uma forma de amor, e estar atento aos detalhes e ao contexto dos fatos exige um esforço que contraria o imperativo da vida moderna. Somos constantemente invadidos por impressões virtuais em uma profusão incontrolável. Exercitar a observação dos acontecimentos fortalece a capacidade da memória, justo o contrário ocorre quando “confiamos” aos aparelhos eletrônico, por exemplo, a guarda das nossas lembranças. Confiamos tanto nos sistemas e perdemos o interesse pelas pessoas. Cada vez mais estamos indiferentes diante das relações humanas e apaixonados pela tecnologia. Os detalhes do fato escapam nossa atenção e nos damos por satisfeitos ao ouvir suas versões fragmentadas e sem vida.

Somente quando depositamos a atenção genuína nos fatos é que teremos autoridade para falar sobre eles de uma forma verdadeira. A qualidade da narrativa diz tanto sobre o narrador quanto sobre os fatos, simultaneamente. A narrativa será rica quando os detalhes permitirem sua reconstituição na alma de quem ouve ou lê. Uma narrativa rica e autêntica gera confiança entre quem narra e quem ouve. A coerência da narrativa é dada pelo encadeamento sequencial das imagens revelando o sentido dos fatos e, como um milagre, une as pessoas.

É muito difícil narrar fatos, e é muito mais fácil falar sobre eles. Quando falamos “sobre” em vez de “descrever”, há o risco dos fatos serem contaminados com nossos próprios conceitos, descaracterizando-o. Um narrador como Guimarães Rosa aporta veracidade à sua narrativa, enquanto que um comentarista com suas opiniões, por mais especializada que seja, pode deformar a verdade. Estas duas situações, narrar e comentar, podem aproximar ou separar pessoas, visto que aportam qualidades distintas às relações humanas, quando se preza a verdade dos fatos.

Uma adequada leitura dos fatos é um dom valioso para quem ocupa posição de poder e tem de tomar decisão. Pessoas assim anseiam por uma relação de confiança, o que significa ter ao seu lado alguém que o ajude a fazer leitura e construir narrativas ricas em vez de ideias e suposições apenas. A confiança, num sentido pleno é essencialmente pessoal e emerge paulatinamente. E para que duas pessoas tenham confiança mútua elas precisam percorrer um caminho juntas.

Neste ponto quero introduzir a figura do trusted advisor, recorrendo a imagens extraídas dos mais consagrados textos da literatura mundial. Todo líder que assume uma responsabilidade tem diante de si uma jornada, que para ser percorrida precisará acionar recursos. Na vida real tal como na ficção ou na mitologia, o “herói” tem a companhia de alguém, um companheiro de viagem. Inúmeros são os exemplos a serem mencionados. Guimarães Rosa no seu Grande Sertão, apresenta os personagens Riobaldo e Diadorim. Quem não se lembra Will Smith como o caddy no filme Lendas da Vida, ou do incansável Sam apoiando o Frodo no Senhor dos Anéis.

Obras universais como Moisés do Egito e seu irmão Aarão, Don Quixote e seu exótico companheiro Sancho Pança na obra de Miguel de Cervantes. Parsifal que cumpre seu destino quando encontra Feirefiz no texto de Wolfram Von Eschenbach. Dante convoca Virgílio, poeta que lhe inspirou na Divina Comédia. Todos estes e infinitos outros, retratam o papel fundamental do companheiro como alguém essencial para a realização da tarefa, seja ela chegar à terra prometida, lutar contra o mal, entrar no castelo do Graal e, até mesmo, descer ao inferno. Estes incansáveis parceiros doam o melhor de si para os heróis a quem servem. Em todas estas sagas os companheiros apoiam e às vezes confrontam seu parceiro com a realidade diante deles, sempre lembrando o herói da sua tarefa. O que de mais importante estes conselheiros fazem é dar aos companheiros a oportunidade de uma leitura objetiva dos fatos em torno dos seus destinos.

Tomar decisão acertada será cada vez mais possível à medida que adquire-se a coragem de lidar com os fatos tal como se apresentam. Deixa-se de buscar apenas opiniões especializadas, tentando reproduzir ideias ou teorias pré-concebidas ou métodos e modelos conhecidos. Todos nós, que já ocupamos cargos de alta responsabilidade, sabemos que a qualidade das decisões é um fator de engajamento também dos liderados. A confiança da equipe cresce à medida que o líder faz a leitura correta dos fatos. Lidar com os fatos tal como se apresentam torna-se portanto um dos seus grandes atributos.

Para um líder, quanto mais consciente das suas responsabilidades ele é, maior o sentimento de solidão. Incontáveis são os livros e artigos que mencionam a solidão como ônus do cargo de comando. O conselheiro pessoal de confiança (trusted advisor) ocupa este lugar, zelando pelo espaço de confiança e apoiando o indivíduo único e capaz que está à sua frente. Ele não é um coach ou um mentor, mas reúne as habilidades destes profissionais, agregando algo que só alguém que já esteve em situação similar pode compreender a dor da solidão. Ter conhecimento de alguma técnica específica pode ser de grande ajuda no curso regular os acontecimentos, entretanto, em momentos de crise um conselheiro pessoal é alguém que pode oferecer um espaço de reflexão qualificada, pois ele conhece os tipos de sentimentos que sobrevém a quem está naquele lugar, por ter vivido alguma experiência em situação possivelmente similares. A qualidade do vínculo entre os dois companheiros de jornada cresce à medida que o significado do encontro entre eles vai aos poucos ficando evidente. Detalhes que antes passavam desapercebidos são vistos como peças que preenchem espaços na trama dos acontecimentos, como se fossem pequenos milagres.

A confiança é como um bem a ser cultivado, é uma responsabilidade difícil de ser conquistada e cresce com o tempo. Neste processo de construção de um ambiente de confiança entre pessoas, como caracterizado acima, identificamos ainda três fatores. Primeiro, uma profunda reflexão identificando afinidades de propósito e princípios. Segundo, desenvolvendo uma prática de observar os fatos atenta e objetivamente, integrando em uma única imagem do que se deseja alcançar. Terceiro, atuando a partir da realidade percebida. Estes passos apontam para um processo de aprendizagem e amadurecimento contínuo, com tendência a decisões sempre mais consciente.

Uma vez que a confiança esteja presente na relação, os fatos vão se desnudando de interpretações pessoais. Abre-se para o que é diferente e não apenas o que é familiar. Existe uma força criativa onde há diferenças e, o que a princípio é um fator de conflito e separação pode ser apreciado como potencialmente valoroso, por ser matéria prima para o novo. Quando o ambiente de confiança se forma, algo inédito poderá emergir, mesmo nas adversidades.

José Luiz Ferreira é Conselheiro, Consultor e Coach e membro do Conselho de Administração da SBPNL